A Revolução dos Bichos tenta atualizar uma obra atemporal e falha miseravelmente | Crítica

A Revolução dos Bichos tenta atualizar uma obra atemporal e falha miseravelmente | Crítica

Desde o primeiro trailer, já era possível perceber qual seria a proposta desta adaptação: pegar o clássico de A Revolução dos Bichos e atualizá-lo para os tempos modernos. E, sinceramente, isso sempre pareceu uma decisão desnecessária, porque a grande força da obra original está justamente no fato de ela continuar atual mesmo tantas décadas depois.

Ainda assim, existia uma certa curiosidade em torno do projeto, principalmente por causa dos nomes envolvidos. A direção de Andy Serkis e o elenco de vozes originais com nomes como Seth Rogen, Kieran Culkin, Glenn Close, Jim Parsons, Iman Velani e Gaten Matarazzo davam a sensação de que talvez pudesse sair algo interessante dali.

E, de certa forma, até saiu — talvez porque eu realmente esperasse algo muito pior. Mas definitivamente não chega perto da profundidade e da potência política do material original.

Assista ao trailer:

A animação é bem produzida visualmente, e isso merece reconhecimento. Há um cuidado evidente na construção estética, principalmente nos cenários da fazenda e na movimentação dos personagens. Além disso, a decisão de criar um protagonista original, o Sortudo, funciona melhor do que eu imaginava. Pensando na mudança de mídia e na necessidade de conduzir a narrativa de maneira mais acessível para um público amplo, essa foi uma escolha compreensível e até funcional em vários momentos.

O grande problema está justamente no roteiro! A adaptação de A Revolução dos Bichos simplifica demais o texto afiado de George Orwell, transformando boa parte das sátiras políticas em diálogos excessivamente explicativos. Tudo parece mastigado.

Fora que o enredo parece não querer se responsabilizar totalmente com o peso da sua própria história, deixando de lado boa parte do fator político, e o que sobra é apenas uma fábula estranha sobre animais brigando por poder, sem a densidade crítica que transformou o livro em um clássico atemporal.

É como se os roteiristas tivessem decidido subestimar completamente a inteligência do público, partindo da lógica de que, por ser uma animação, ninguém realmente levaria aquela história a sério.

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E a tentativa de modernizar esse universo só piora essa sensação.

O filme cria uma mistura muito esquisita entre a estética clássica da fazenda — com trabalho braçal, celeiros e animais vivendo como no texto original — e elementos futuristas completamente deslocados, como drones, carros altamente tecnológicos e um capitalismo quase cyberpunk, que em alguns momentos lembra algo saído de Blade Runner.

Essas mudanças bruscas de tom tornam tudo confuso. Há cenas que tentam ser críticas, outras que flertam com o absurdo e algumas que parecem simplesmente não saber qual identidade o filme quer assumir. O resultado é uma obra inconsistente, que nunca consegue encontrar equilíbrio entre homenagem, atualização e sátira.

Como entretenimento, funciona em alguns momentos. A animação prende a atenção, tem um ritmo razoável e não chega a ser um desastre completo. Mas também não ultrapassa o mediano em praticamente nenhum aspecto.

No fim, talvez o maior mérito dessa adaptação seja simplesmente apresentar o trabalho de George Orwell para uma nova geração. E, sinceramente, se ela conseguir fazer algumas pessoas saírem do cinema interessadas em conhecer a obra original, considere como o maior mérito para todos os bípedes que trabalharam nesta adaptação!

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