Supergirl prova o valor de sua protagonista, mas hesita em deixá-la brilhar sozinha | Crítica

Supergirl prova o valor de sua protagonista, mas hesita em deixá-la brilhar sozinha | Crítica

Após o sucesso de Superman (2025) e o início de uma nova fase para a DC nos cinemas, Supergirl tinha a missão de provar que Kara Zor-El poderia sustentar uma história própria longe da sombra de seu primo. Embora nem sempre consiga encontrar uma identidade tão marcante quanto a de seu antecessor, o longa acerta em cheio no quesito de entender Kara, mas infelizmente parece ter medo de deixar ela conduzir seu próprio filme.

Assista ao trailer:

Por muitos anos, Supergirl foi tratada apenas como uma extensão do Superman. Sua história, porém, sempre carregou um potencial dramático próprio: o de uma jovem que não apenas ouviu falar de Krypton, mas viveu nele e testemunhou também sua destruição. O novo filme compreende essa diferença e constrói seus melhores momentos ao redor do luto, das memórias e da sensação de solidão que acompanham Kara ao longo de sua jornada no espaço.

Baseado na história em quadrinhos de sucesso Supergirl: A Mulher do Amanhã, Kara conhece Ruthye (Eve Ridley), uma menina que busca vingança contra o homem que assassinou sua família, e é surpreendida quando o assassino também envenena seu cachorro, Krypto. Determinada a ajudar garota e salvar seu amigo de quatro patas, Supergirl embarca em uma jornada pelo espaço ao lado de Ruthye, perseguindo o criminoso através da galáxia. Ao longo da viagem, Kara é obrigada a confrontar o trauma da destruição de Krypton e refletir sobre seu papel como heroína em uma jornada marcada pelo luto, tanto dela, como de sua nova amiga.

Grande parte do sucesso dessa adaptação vem pela escolha de Milly Alcock como Supergirl. A atriz incorpora Kara Zor-El de forma brilhante e sem esforço, demonstrando vulnerabilidade, impulsividade e carisma sem ser exagerada. Ela é divertida, segura de si e relatável. Em nenhum momento a interpretação de Milly transmite a sensação de alguém tentando imitar versões anteriores da personagem; pelo contrário, ela vive uma Supergirl própria, ao mesmo tempo fiel à essência dos quadrinhos e distinta dentro do novo universo da DC.

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Visualmente falando, Supergirl entrega algumas das imagens mais lindas já vistas em uma adaptação da DC nos cinemas. As sequências ambientadas no espaço sideral possuem uma escala grandiosa que reforça perfeitamente a sensação de isolamento de Kara no universo. É principalmente nas lembranças de Krypton que o filme encontra seus momentos mais poderosos, já que, diferente de Superman que possui uma conexão com seu planeta natal quase abstrata, Supergirl se recorda de toda a vida que perdeu. São momentos que pedem para serem vistos em uma tela IMAX, onde a fotografia e os efeitos visuais do filme podem ser apreciados em toda a sua grandeza.

O roteiro explora esse luto com sensibilidade, transformando a destruição de Krypton e a perda dos pais de Kara em algo muito maior do que apenas uma simples história de origem. O resultado são sequências impactantes que ajudam a compreender não apenas quem a personagem é, mas também o peso que ela carrega, especialmente agora que a vida de seu cachorro está em perigo.

A exploração do espaço sideral também rende alguns dos momentos mais interessantes do filme. A quantidade de alienígenas diferentes, cada um com visuais e figurinos únicos, cria uma atmosfera que lembra Star Wars em seus melhores momentos. É um mundo que parece habitado e cheio de histórias próprias, o que torna a jornada de Kara ainda mais envolvente.

Apesar de tudo isso, fica a sensação de que falta algo para transformar Supergirl em uma obra memorável. Embora funcione bem como entretenimento e apresente uma protagonista envolvente, o longa não encontra uma identidade própria capaz de diferenciá-lo do restante dos filmes do mesmo gênero. Em um bimestre repleto de grandes lançamentos, é difícil não imaginar que a produção vai acabar sendo ofuscada por outras obras mais ambiciosas ou marcantes.

Os problemas ficam evidentes também no humor. Parte das piadas não funciona, algumas vezes interrompendo momentos que seriam mais impactantes se o filme confiasse em seu lado dramático. O maior exemplo disso é Lobo (Jason Momoa), o personagem existe apenas para lançar comentários engraçados entre uma cena e outra, sem exercer influência significativa sobre a história. Sua presença acrescenta pouco à jornada de Kara, e o filme não seria diferente sem ele. Não ajuda o fato do ator voltar a interpretar um arquétipo muito semelhante ao que vem apresentando há anos: o brutamontes carismático e irreverente que faz piada de tudo.

A trilha sonora também contribui para essa sensação de oportunidade desperdiçada. A insistência em faixas nostálgicas dos anos 1980 soa mais como uma tendência saturada do que uma escolha criativa inspirada. Em determinado momento, uma das sequências de ação mais impactantes do filme perde parte de sua força ao ser acompanhada por uma música que destoa completamente da tensão construída pela cena, destruindo o impacto que ela poderia ter alcançado.

Além disso, a presença constante do Superman (David Corenswet) também levanta uma questão: por que um filme da Supergirl parece tão receoso em deixá-la nos holofotes sozinha? Em vários momentos, a narrativa recorre ao Homem de Aço de forma desnecessária, como se precisasse constantemente lembrar ao público de sua existência. O filme sabe que Kara funciona, mas continua procurando muletas para apoiá-la.

Apesar de seus problemas, Supergirl continua sendo uma adição sólida ao novo universo da DC. Grande parte dessa conquista pertence a Milly Alcock, que entrega uma interpretação carismática e emocionalmente sincera de Kara Zor-El, além de um roteiro que compreende a dor e o sentimento de perda que diferenciam a personagem de seu primo mais famoso.

Embora tropece em um humor falho, em participações desnecessárias e em ideias que mereciam maior desenvolvimento, o filme encontra seu charme quando permite que Kara ocupe o centro da narrativa. No fim, talvez seu maior acerto seja provar que Supergirl é uma heroína capaz de sustentar uma grande história por conta própria, mesmo quando o próprio filme parece esquecer disso.

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