Segredo Obscuro constrói tensão concreta que esbarra em reta final escrachada | Crítica

Em um período que o terror parece cada vez mais inclinado a revelar suas cartas logo nos primeiros minutos para impactar de cara e prender atenção, Segredo Obscuro segue uma direção oposta. O longa se apresenta inicialmente como algo distante do horror moderno mais genérico e prefere conduzir a narrativa de forma gradual, escondendo suas intenções e trabalhando a tensão acima de qualquer choque imediato. Com uma inspiração notória no sucesso recente de A Substância, o filme encontra sua maior força justamente na construção da atmosfera envolvente e na sua identidade cheia de personalidade, apesar de tomar decisões questionáveis.

Veja o trailer dublado:

Vimos a trama pelos olhos de Samantha Lake (Elisabeth Moss), uma atriz esquecida pela indústria por não seguir os padrões de beleza tradicionais, mas agora está disposta a trilhar novos rumos para retomar sua carreira. Assim ela é apresentada a empresa de saúde e estética Shell, que comandada por Zoe Shannon (Kate Hudson) promete um método revolucionário para preservar a jovialidade das mulheres. Sam logo nota uma estranheza nos comportamentos excêntricos da alta classe e a amizade de ambas começa a ganhar contornos mais tenebrosos, assim a sensação de normalidade some para dar espaço a uma realidade muito mais bizarra do que jamais seria esperado.

Há um esforço evidente do longa para apresentar conceitos que se aproximam de uma pseudociência mais plausível, algo que ajuda a manter a sensação de que aquilo poderia estar mais próximo da realidade. Ao mesmo tempo, as críticas sociais relacionadas ao culto à juventude, à busca pela perfeição, além do etarismo praticado pelas corporações, são todos elementos que surgem de maneira mais explícita. Sem adornos e por diálogos mais diretos, aqui os apontamentos são verbalizados de forma escancarada, sem qualquer receio de evidenciar suas intenções de abordagem sociocultural.

Em contraponto, é justamente na reta final que surgem os maiores pontos de discussão. O filme decide abandonar parte dessa perspectiva mais pé no chão e abraça um caminho muito mais surreal, alterando completamente o tom estabelecido até então. Há margem para enxergar liberdade criativa e o empenho para causar impacto, enquanto isso também pode ser sentido como uma resolução simplifica excessivamente tudo aquilo que vinha sendo construído. Minha sensação é que a narrativa prometia um desfecho mais autêntico e concreto, mas opta por uma solução que vai de desarmonia com a construção.

Ainda assim, Shell (no título original) merece reconhecimento por suas qualidades, principalmente a originalidade presente até mesmo no momento dos erros. Mesmo que sua conclusão não alcance um nível equivalente ao desenvolvimento, o saldo permanece positivo, ainda que definitivamente não vá ser unanimidade entre o público. Trata-se de uma mistura de gêneros bem realizada e com identidade própria, sabendo como manter o público interessado através do suspense e desconforto enquanto ambienta o drama pessoal da protagonista com doses de comédia.

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