Representante brasileiro na corrida pelo Oscar, Feito Pipa é uma obra delicada e emocionante sobre infância, preconceito, família e, acima de tudo, o direito de viver sem precisar deixar de ser quem se é.
O novo filme de Allan Deberton traz uma narrativa muito bonita. E não digo isso apenas pela história que conta, mas pela maneira como escolhe contá-la. É uma produção que parte de situações bastante dramáticas, mas que nunca se deixa dominar completamente pela tristeza. Pelo contrário, encontra espaço para o humor, a alegria e a leveza, construindo uma narrativa cheia de vida, mesmo quando precisa tocar em feridas difíceis.
Assista ao trailer:
Ambientado em Quixadá, interior do Ceará, o longa acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino criado pela avó, Dilma (Teca Pereira), que enfrenta os desafios de crescer em um ambiente que nem sempre aceita sua maneira de ser. Uma criança queer, Gugu sonha em jogar futebol, dançar, estar com os amigos e, simplesmente, ser feliz. Mas sua realidade começa a mudar quando a avó passa a enfrentar o Alzheimer e ele precisa lidar com a possibilidade de ir morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), um homem rígido e incapaz de compreender verdadeiramente o próprio filho.
O mais interessante aqui é como o roteiro consegue trabalhar tantas questões sem transformar a história em uma sequência de discursos ou lições de moral. O Alzheimer, o preconceito, a relação entre pai e filho e os conflitos da infância estão todos presentes, mas o filme não parece interessado em explicar ao espectador o que ele deve sentir. Ele simplesmente acompanha Gugu, suas descobertas, suas dificuldades e seus pequenos momentos de felicidade. E é justamente nessa simplicidade que encontra sua maior força.
Allan Deberton demonstra uma sensibilidade admirável ao equilibrar os diferentes tons da narrativa. Há momentos genuinamente engraçados, outros bastante emocionantes e situações que machucam justamente porque são muito próximas da realidade. Afinal, embora tenha uma identidade profundamente cearense, “Feito Pipa” é uma história com a qual qualquer pessoa pode se identificar. Existe algo universal na vontade de uma criança de ser aceita, amada e livre para descobrir quem é.
E isso também passa pela construção dos personagens. Batista, por exemplo, funciona como uma espécie de antagonista, mas não no sentido tradicional. Ele não é um vilão caricato, tampouco alguém que pratica grandes atrocidades. É um homem comum, que acredita estar fazendo o melhor pelo filho, mas que carrega um machismo e uma homofobia tão enraizados que sequer consegue reconhecer o problema em suas próprias atitudes. Lázaro Ramos entrega uma atuação muito consistente justamente por compreender essa complexidade. Seu personagem não precisa ser exagerado para causar desconforto.
Teca Pereira também merece destaque. Sua Dilma é uma personagem fundamental para a narrativa, e a atriz consegue transitar com muita naturalidade entre momentos de humor e cenas de partir o coração. É uma atuação cheia de delicadeza, que dá ainda mais humanidade a uma história que já tem muito coração.
Mas preciso falar de Yuri Gomes: o filme é dele! O jovem ator entrega uma atuação impressionante, cheia de carisma, espontaneidade e presença. Gugu é um personagem muito fácil de amar, e Yuri consegue transmitir suas alegrias, inseguranças e frustrações com uma naturalidade que chama atenção.
O restante do elenco infantil também funciona muito bem, com personagens que realmente acrescentam à narrativa, em vez de servirem apenas como figurantes na jornada do protagonista.
Acompanha no Instagram:
E talvez o maior mérito de “Feito Pipa” esteja justamente em não oferecer respostas fáceis. O filme não precisa transformar seus personagens em exemplos de comportamento, nem construir um discurso excessivamente didático para comunicar aquilo em que acredita. Ele fala sobre preconceito, afeto, envelhecimento e família, mas, acima de tudo, fala sobre viver. Sobre ter o direito de aproveitar a vida, fazer planos e imaginar um futuro no qual as coisas possam dar certo.
E parafraseando o mito de Sísifo, de Albert Camus, é preciso imaginar Gugu sendo plenamente feliz. É preciso imaginar esse menino vivendo uma vida boa, cercado de pessoas que o amam e o aceitam, podendo ser exatamente quem deseja ser. E poucas coisas são tão bonitas quanto um filme que consegue despertar esse sentimento.
“Feito Pipa” é o representante brasileiro na corrida pelo Oscar de 2027, dando continuidade a uma sequência recente de produções nacionais de grande destaque internacional, depois de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. E, sinceramente, fico muito feliz em ver uma produção cearense ocupando esse espaço.
É um filme emocionante, delicado e cheio de personalidade, que não deve nada a grandes produções internacionais. Mais do que merecer o reconhecimento, merece ser assistido, celebrado e lembrado!
No fim das contas, “Feito Pipa” é uma história sobre uma criança que só quer ser feliz. E, às vezes, não precisamos de muito mais do que isso para encontrar um grande filme.
E para ficar por dentro das principais informações sobre a cultura pop, siga @6vezes7 no Instagram, TikTok, Twitter e YouTube!










