Representante do Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027, Feito Pipa vem construindo uma trajetória de destaque em festivais e conquistando o público por onde passa.
Dirigido por Allan Deberton, o longa apresenta uma história sobre afeto, família e relações entre gerações, com uma narrativa que equilibra drama, humor e emoção.
Durante a pré-estreia do filme em Fortaleza, realizada na última sexta-feira (30), conversei com o diretor Allan Deberton e com o elenco formado por Lázaro Ramos, Teca Pereira e Yuri Gomes.
Na entrevista, os artistas comentaram a construção de seus personagens, os sentimentos despertados pelo filme e a expectativa em torno da campanha brasileira rumo ao Oscar.
Lázaro também falou sobre como interpretar Batista o fez redescobrir sua paixão pela atuação, enquanto Deberton explicou as escolhas narrativas e musicais da produção e a importância de levar o cinema cearense e nordestino para o cenário internacional.
Confira a entrevista completa:
Teca Pereira — A alegria de viver de Dilma
Maximiano: A Dilma é construída muito nos pequenos detalhes, no jeito de andar, nos olhares, nos gestos, nas brincadeiras. Então, é uma personagem muito pra cima, muito alto astral.
Eu queria saber o que você gostaria que o público enxergasse e levasse consigo dessa personagem, além do estado dela, além da doença.
Teca Pereira: Levar, porque a Dilma tem uma alegria de viver, ela é uma mulher forte, ela tem muito amor no coração por esse neto e ela gosta de estar viva. Ela tem que estar viva e ela gosta de estar viva. Ela é uma mulher positiva.
Isso, as pessoas sentem isso pela tela, que é muito importante pra mim, enquanto atriz, conseguir chegar no coração das pessoas.
Maximiano: O filme vai representar o Brasil nessa corrida pelo Oscar. Como é o seu sentimento de ver o filme sendo tão abraçado pelo público?
Teca Pereira: Isso é uma mágica. É como se fosse um sonho, porque ser aclamado ali, ser indicado, já é um grande prêmio, mas ainda mais é… o máximo.
Yuri Gomes — O carinho de Gugu
Maximiano: Yuri, o Gugu, ele tem um universo muito próprio. Ele joga bola e dança. Eu já vi uma entrevista sua comentando que gostou mais de dançar do que de jogar bola, porque você já dançava.
Como foi que o diretor, que o Allan, foi essa conversa que ele teve com você pra explicar o personagem? O que você sentiu? Como foi esse diálogo de vocês?
Yuri Gomes: Eu não lembro muito não, mas ele teve bastante paciência, bastante harmonia comigo. A gente conversou bastante e conseguiu gravar com prazer.
Maximiano: O que tem de você no Gugu, nele como personagem?
Yuri Gomes: O carinho dele.
Maximiano: Como é pra ti ver o filme sendo tão abraçado pelo povo brasileiro? Como é que você está se sentindo nesse momento?
Yuri Gomes: Muito emocionante e ansioso.
Lázaro Ramos — Batista e a redescoberta da paixão pela atuação
Maximiano: Eu queria saber se você achou que o Batista, ele é um contraponto à sua própria personalidade, como homem, como pai, e como foi viver esse personagem?
Lázaro Ramos: Pois é, eu tento não ser o Batista, mas, assim, essas coisas, assim, você querer julgar o outro pelo jeito dele, você querer controlar a existência do outro, é uma coisa que pode acontecer com todos nós.
Então, eu acho que em algum momento eu posso ter esbarrado no Batista, mas eu tento não ser. Eu tento ser um pai acolhedor, que conversa, que declara o meu amor, que cuida dos meus filhos.
Mas o Batista acaba que eu acho que o importante é a gente pensar se ele pode nascer em nós.
Maximiano: Qual a importância desse filme e desse personagem para o momento atual da sua carreira?
Lázaro Ramos: Depois do Batista, eu me reapaixonei pela atuação.
Antes do filme eu estava me preparando pra só dirigir, e aí de repente chegou o roteiro e eu falei: “Eu quero muito fazer isso.”
Quando acabou o filme eu falei: “Nossa, eu gosto de ser ator.”
Aí que veio o Gendal, e aí que veio todos os projetos como ator que eu tô fazendo.
É muito bom quando um trabalho desperta nossa paixão novamente por aquilo que a gente faz.
Maximiano: Quando você chegou em casa, você brincou com a Thaís dizendo que não tinha gritado durante toda a gravação do filme.
Lázaro Ramos: Pois é, não gritei, não tive grandes explosões. Pois é, eu tava assim.
Quando eu li o roteiro, primeiro planejei fazer aquele vilão clássico, você grita, cara feia, fechada, aquilo que dá prêmio.
Eu cheguei em casa, Thaís falou: “E aí, arrasou?”
Eu falei: “Olha só, eu fiz com o coração. Eu não sei se eu vou ganhar prêmio, nem se vão reparar no que eu tô fazendo.”
E quando eu assisti, achei muito legal me ver também nesse lugar mais íntimo, porque eu acho que um filme merece justamente isso. Essa intimidade dos personagens é que é a grande força do filme.
Maximiano: Vou pedir licença pra abrir um parêntese aqui, eu vi uma entrevista sua recentemente, você falando de Stuart Não Consegue Salvar o Universo, que você é muito nerd.
Eu queria saber, além de Feito Pipa, se você pode fazer alguma indicação de coisa que você assistiu e gostou?
Lázaro Ramos: Eu assisti recentemente Fauda, gostei muito recentemente.
Eu gostei muito do Emergência 53, adoro, já gostava muito do Sob Pressão e a turma fez uma outra série massa, mas eu assisto uma série e um filme por dia. Isso aí tá na rotina.
Allan Deberton — A trajetória de Feito Pipa e a campanha pelo Oscar
Maximiano: Allan, Feito Pipa tem uma história muito tocante, muito bonita, e o filme vem tendo uma linda trajetória nos festivais ao redor do mundo. A que você atribui isso?
Allan Deberton: Eu gosto de trabalhar com histórias simples, para que tenha ali a capacidade de se tornarem complexas em tela.
E era desafiador diversas cenas, assim, do filme, apesar da simplicidade do texto, porque dentro de cada personagem tinha muita profundidade, tinha um mar de sentimentos.
E o filme, ele precisava, assim, era sempre meu interesse, e também interesse de toda a equipe de produção, fazer com que se tornasse um filme acessível.
Já partindo do ponto de vista do Gugu, que é o personagem protagonista, percebia que ali, através dos olhos de uma criança, tinha a chance de estar fazendo esse filme ser fácil, inclusive para crianças.
Então foi nesse lugar que a gente conseguiu fazer uma excelente estreia na Mostra Generation, no Festival de Berlim. Era uma plateia bem mista.
E de lá pra cá, os festivais é onde a gente tem circulado e realmente, assim, tem uma variedade enorme de plateia.
E é isso, assim. Então o público tem se conectado com a obra, a gente tá nesse lançamento nacional, torcendo pra que as pessoas consigam assistir ao filme no cinema, né? O filme tá em cartaz.
É importante que esse encontro com o filme seja na tela grande, né, de uma forma coletiva, levando os amigos, a família.
Torcida das pessoas, marcando ali o arroba da Academia, né? Falando coisas bonitas do Feito Pipa, que eu acho que isso ajuda muita gente a ser visto também lá fora.
Maximiano: Feito Pipa aborda muitas questões bem delicadas, mas ele consegue lidar muito bem com momentos de humor, com uma certa brincadeira, que também vem de você como diretor.
Como é que você trabalhou na direção e na montagem do filme pra encontrar esse equilíbrio e evitar que a história ficasse muito pesada no drama, que talvez fosse até um caminho mais fácil?
Allan Deberton: Eu acho que talvez contribua trazer pro processo um pouco de musicalidade.
Eu gosto muito de trilha sonora e também de brincar com esses segundos sentimentos, né? Porque o drama, ele só é um drama porque também permite o sorriso, porque permite ali os sentimentos juntos.
E eu acho que o Feito Pipa é isso, é um filme cheio de muitas emoções e dentro dessas emoções o público consegue se envolver com a história e com os personagens.
Maximiano: E falando de trilha sonora, Time After Time, quando foi que essa música surgiu? O que ela significa pra ti e pra narrativa desse filme?
Allan Deberton: Time After Time é uma música, uma balada, né, que marcou muitas gerações, assim, inclusive a minha.
E o filme estava precisando de uma música, e no roteiro a gente chamava de “música chiclete”, assim, tinha aquela música ali que a gente sempre vai estar reconhecendo.
E ela cai como uma luva pelo título, né, também pela forma romântica e emocionante da canção.
Foi uma alegria ter adquirido os direitos para a gente colocar no filme.
Maximiano: E pra finalizar, eu vi uma entrevista sua na Veja falando que o filme tem, sim, chances na campanha do Oscar.
E aí, agora que o filme teve uma linda trajetória em festivais, ele ainda não entrou no circuito comercial, mas já tá tendo sessões de pré-estreia, tá sendo muito aceito, abraçado pelo público.
Qual o sentimento e qual a expectativa do filme nessa campanha?
Allan Deberton: A gente tá fazendo o melhor trabalho, que é de tentar continuar, na verdade, fazer o que a gente já tava fazendo: exibir o filme pra maior quantidade de plateias possíveis.
No final, na campanha rumo ao Oscar, é isso, é exibir o filme pras plateias de membros da Academia [do Oscar], também acompanhando ali de debates, sempre que possível, e fazendo contatos com a indústria.
Esse movimento a gente já tá fazendo e é muito prazeroso porque tanto a gente aprende bastante, né, com essa oportunidade, uma oportunidade rara, como também a gente leva junto o cinema cearense, o cinema nordestino e brasileiro, tendo ali a chance de também colaborar com as próximas indicações no Brasil.
Assim como os filmes que já foram indicados foram muito carinhosos em estar ali também trazendo pra gente um pouco dos processos, desses desafios.
Então, hoje os produtores do Brasil têm se unido porque a gente percebe essa, vamos dizer assim, grande torcida do brasileiro.










