Digger: ou você ama, ou odeia | Crítica

Digger: ou você ama, ou odeia | Crítica

Digger não é um filme que vai agradar todo mundo. Alejandro G. Iñárritu (O Regresso, Amores Brutos) cria uma sátira caótica e exagerada sobre ambição, poder e como figuras públicas lidam com uma catástrofe que elas mesmas ajudaram a criar. O resultado é uma experiência peculiar, que nem sempre funciona de forma perfeita, mas que também está longe de ser ruim.

Depois de provocar uma enorme catástrofe ambiental, o bilionário Digger Rockwell (Tom Cruise) embarca em uma missão para salvar o planeta e reconstruir sua imagem, cruzando o caminho de diversos políticos e outras figuras poderosas enquanto tenta controlar o caos que criou.

Assista ao trailer:

É impossível falar de Digger sem mencionar que o filme é, acima de tudo, uma sátira. Ele exagera estereótipos associados à política e à cultura americana: o patriotismo extremo, o presidente que se enxerga como uma espécie de escolhido, a ideia de que qualquer problema pode ser resolvido com força militar e, principalmente, a dificuldade de reconhecer a própria responsabilidade diante de uma crise, apontando o dedo para outras pessoas.

Dito isso, essa abordagem pode explicar por que o filme talvez tenha uma recepção mais complicada justamente entre parte do público que é alvo de sua sátira: ele não suaviza suas críticas, e sim abraça o exagero para expor essas contradições. Inclusive, me lembrou muito Não Olhe para Cima (2021) pela maneira como os personagens reagem à uma catástrofe iminente enquanto continuam presos aos seus interesses políticos, ego e negação.

Um dos maiores acertos está em Tom Cruise como Digger Rockwell. Há uma tendência do público mainstream de associar o ator apenas aos seus filmes de ação, esquecendo que Cruise também é capaz de entregar performances mais profundas. Em Digger, ele mergulha de cabeça no personagem e constrói uma figura que, por trás de toda a grandiosidade, possui várias camadas. Sua atuação é intensa, mostrando que existe muito mais em Tom Cruise como ator do que apenas correr, pular de prédios e pilotar aviões.

Algumas críticas mencionaram o excesso de barulho e estímulos presentes em algumas cenas. É verdade que, em certos momentos, a experiência pode ser desconfortável, mas, pessoalmente, não me incomodou tanto. Existe uma lógica nessa escolha: o filme inteiro é construído em torno de uma situação que está saindo do controle. O excesso de informação e sons contribuem para essa sensação de caos constante. Em vez de simplesmente retratar uma catástrofe, o diretor quer que o espectador sinta a confusão e a sobrecarga daquele mundo junto com os personagens dele.

Entrando mais no território dos spoilers (leia por sua conta e risco), há uma revelação no começo do filme que muda toda a sua percepção do mesmo, mas que também causa uma estranheza: o filme, na verdade, é uma peça de teatro sendo gravada dentro dele mesmo. Tive uma dificuldade para me conectar 100% com essa narrativa, porque o longa constantemente te tira da peça e depois lhe coloca de volta nela. Ao mesmo tempo que é um conceito interessante, algumas situações são tão absurdas que fica difícil acreditar que estamos realmente acompanhando uma produção teatral. Teria feito mais sentido se fosse um filme sendo gravado dentro de outro filme.

Digger é um filme nichado. Não será uma produção que funcionará para todos, principalmente por causa de seu humor esquisito, do ritmo lento e da maneira exagerada como aborda seus temas. É o tipo de filme que vai encontrar um público muito apaixonado por sua proposta, e outro que vai odiar: não há meio termo. Vendo que ele é mais experimental e com uma história bem inusitada, talvez tivesse encontrado um público mais dedicado no streaming do que nas salas de cinema.

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